Educação EaD
Foto: Thomas Park
in ,

Cornavírus e os dilemas da educação a distância

A nossa primeira escola foi a nossa casa. Foi lá que aprendemos a língua da sociedade em que nascemos, que comer verduras ajuda a crescer, e o peso de receber um “não” pela primeira vez. Ao crescer, esse ambiente foi, aos poucos, perdendo as características escolares e ganhando outras no lugar: conforto, descanso, folga. Passamos tanto tempo fora de casa, no trabalho, ou na escola, ou realizando outras atividades, que o retorno ao lar se transformou no momento de pausa dos outros afazeres.

Desde março de 2020, com o anúncio da pandemia do novo coravírus e o fechamento das escolas como uma das recomendações da OMS, nossas casas ganharam novos atributos, e mais uma vez, e voltaram a ser o ambiente escolar principal das crianças. Este espaço, mais até do que o outro, deve ser um espaço educacional baseado no diálogo, encontro, compartilhamento e no aprender fazendo. Contudo, os desafios não são poucos. Isolados em casa, os pequenos sentem a falta dos amigos e da rotina anterior, enquanto os pais têm que se desdobrar para apoiar os filhos na realização das atividades escolares.

Os professores, do outro lado da tela, ainda lutam para se adequar à nova realidade da sala de aula, na qual, há poucos meses, celular ainda era coisa proibida. Hoje, esses mesmos professores, que não receberam nenhum treinamento prévio, veem-se obrigados a se integrar às plataformas cada vez mais tecnológicas e superar o desafio de atender todos os alunos dentro de um curto espaço de tempo, dividindo uma atenção ainda mais escassa.

A educação básica a distância e a realidade das famílias brasileiras

Ao direcionarmos a lente do problema da educação a distância para a nossa realidade no Brasil, encontremos problemas de dimensões ainda maiores.

A começar que, um em cada quatro brasileiros não tem acesso à internet no país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa pesquisa verifica o acesso à internet no geral, e não a qualidade dela. Apenas ter aceso à internet não significa possuir internet de qualidade.

Devido a esse problema, projetos de distribuição de dispositivos com acesso a internet foram elaborados, mas até o presente momento, nada foi aprovado. Vale lembrar que, segundo a nossa Constituição Federal de 1988, o direito à educação é um direito básico garantido a toda a população e cabe ao Estado prover meios para que esse direito seja usufruído por ela, seja com a construção e manutenção de escolas, ou seja com a distribuição de computadores para estudos. No entanto, o que vemos atualmente é a transferência da responsabilidade educacional do Estado para as famílias. Enquanto ele declara “continuidade” na educação, milhões de crianças e jovens desaparecerem dos sistemas escolares.

Outro agravante trazido com o fechamento das escolas foi a diminuição no número de registros de ocorrências de violência infantil. O que poderia ser um motivo de comemoração levanta preocupação de especialistas, com uma possível subnotificação de casos durante a quarentena. Essa análise é possível porque a escola ainda é a grande responsável por detectar e relatar casos de abuso infantil.

Por fim, um terceiro problema está sendo enfrentado mais recentemente, com a flexibilização do isolamento na maioria dos estados brasileiros. Agora os pais se veem obrigados a voltar ao trabalho sem o apoio de creches e escolas para deixar os filhos.

Qual a solução?

A pergunta sobre a reabertura das escolas ecoa dentro do ambiente familiar, dentro de empresas e da própria escola. A pergunta, contudo, não deveria ser se é viável abrir escolas, já que esse é o principal meio de interação entre as crianças e jovens, tanto em questões de aprendizagem quanto nas suas relações sociais.

É completamente inadequado pensar em um ensino totalmente online para os alunos do ensino básico, principalmente do ensino infantil. A educação a distância nunca foi uma opção viável para milhões de famílias e não é eficaz para determinadas faixas etárias.

A pergunta que deve ser feita, portanto, é o que é possível fazer para viabilizar essa reabertura. Esperar a descoberta de vacinas poderia ser uma resposta, mas, apesar do otimismo, não é possível planejar o futuro apenas após a liberação de um imunizante que esteja disponível para a população inteira em tão pouco tempo. A escola deve se responsabilizar quanto às exigências de medidas sanitárias e aumentar o cuidado com os alunos, contudo, ter segurança é importante, mas não o suficiente nesse cenário.

O caminho ideal seria ter seguido um lockdown eficaz para que agora não tivéssemos que nos deparar esse problema. Alguns países da Europa e da Ásia já conseguiram reabrir escolas sem grandes surtos porque achataram a curva do vírus na sociedade como um todo. Aqui, não fizemos a lição de casa e seguimos em uma recuperação que nunca acaba.

A verdade é que, nesse cenário de austeridade, enquanto o dinheiro falar mais alto do que a vida, as únicas opções possíveis para a educação nesse ano são ruins (ensino a distância) ou catastróficas (reaberturas prematuras).

 

 

 

 

Renda Básica

Renda Básica: Uma realidade distante?